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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Por Lugares Incríveis

E essa resenha gente? Não tem como definir esse livro numa resenha! Mas com certeza é um dos livros mais ricos em quotes e pensamentos vivos que já li. Jennifer Niven entrou para as autoras favoritas, e sim, leio tudo que ela escrever. 



Theodore Finch está desperto novamente. Após dias de blecautes onde mal se lembra do que aconteceu, em especial as datas festivas do último fim de ano, ele acorda e não sabe exatamente por quantos dias ficará assim. E enquanto espera os dias de escuridão chegarem novamente, ele se pergunta todos os dias: "Hoje é um bom dia para morrer?" É quando se vê a seis metros de altura, prestes a pular da torre do sino da escola, que ele descobre que não está sozinho.

Violet Markey é o tipo de garota que leva uma vida perfeita, mas tudo acaba no dia que sua irmã, Eleanor, é vítima de um acidente de carro que apenas Violet sobrevive. Sentindo-se culpada, ela se afasta de tudo e de todos e sem saber como, vê-se também no alto da torre do sino da escola, prestes a pular. Apavorada quando as pessoas lá embaixo começam a notá-la, Finch a ajuda a sair dali sã e salva, no que mais tarde fica conhecido como o dia em que Violet Markey salvou a vida de Theodore Aberração, o aluno mais suicida de todos os tempos da escola de Bartlett.

Quando o professor de geografia passa um trabalho para a turma no qual eles devem visitar lugares de Indiana, Violet se vê encurralada quando Finch, diante de toda a turma, a convida para ser sua dupla na tarefa. Sem mais desculpas sobre não estar preparada, ela e Finch se aventuram por lugares onde nunca pensaram visitar.

“[...]tenho no carro um mapa que praticamente pede pra ser usado, e existem lugares que precisam ser vistos. Talvez ninguém nunca vá até lá nem valorize esses lugares nem se dê o trabalho de pensar o quanto são importantes, mas talvez até o menor deles tenha algum significado. Se não tiverem pros outros, talvez tenham pra gente. No mínimo, quando a gente for embora, saberemos que pelo menos os visitamos. Então vamos. Vamos até lá. Vamos fazer alguma coisa. Vamos sair do parapeito.”

Inevitavelmente, essa improvável amizade se transforma em um amor verdadeiro e único. Finch mostra a Violet uma forma nova de ver a vida e aos poucos ela vai recuperando a esperança de viver e ser feliz.

Sinceramente, Violet, não sei por que a galera não gosta de mim. Mentira. Quer dizer, eu sei e não sei. Sempre fui diferente, mas pra mim diferente é normal.”

Como ser o que lhe dá na telha se sempre está sendo julgado pelos olhos da sociedade? Por Lugares Incríveis é mais um daqueles livros que me fazem refletir sobre os relacionamentos sociais. As pessoas estão se tornando uma massa homogênea, onde quem é “diferente” deve encarar sem medo os rótulos atribuídos às suas características ou sofrer as consequências. Finch não se importa com isso, ele escolhe uma personalidade diferente a cada semana, “Finch Canalha, Finch Largado, Finch Fodão, Finch anos 80.” Ele não se importa, mas infelizmente compreendemos todo o impacto do que é uma pessoa ser tachada como diferente.

“Quero me afastar do estigma que todos eles sentem só porque têm uma doença no cérebro e não, digamos, no pulmão ou no sangue. Quero me afastar de todos os rótulos. “Tenho TOC”, “Tenho depressão”, “Eu me corto”, eles dizem, como se essas coisas os definissem. Tem um coitado que tem déficit de atenção, é obsessivo-compulsivo, tem transtorno de personalidade limítrofe, é bipolar e, ainda por cima, tem um tipo de transtorno de ansiedade. Eu nem sei o que é transtorno de personalidade limítrofe. Sou o único que é só Theodore Finch.”

A perspectiva de Finch me trouxe a realidade da tristeza profunda. Nunca entendi os motivos dessa “doença” a que chamam depressão. Acreditava que a cura estava em ajudar a si próprio, procurar a felicidade no dia a dia e viver. Mas isso se mostrou inútil na história de Jennifer Niven, Finch pode até  assumir as personalidades desejadas e não se importar com os rótulos que ganha, mas lá no fundo, algo sempre está falando mais alto.

“Ao andar pelos corredores, não há como prever o que Finch Fodão vai fazer. Dominar o colégio, a cidade, o mundo. Será um mundo de compaixão, de amor ao próximo, de amor entre alunos ou, pelo menos, de respeito entre as pessoas. Sem julgamentos. Sem xingamentos. Nada, nada, nada disso.”

E ele encontra? Aquela imensidão azul pode ser o caminho.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A Face dos Deuses

Os habitantes de Dünya ainda sofrem os horrores deixados pela Longa Guerra. Mesmo depois de tantos anos, a mais simples ameaça de um novo desentendimento pode fazer com que alianças e pactos improváveis sejam selados. A Face dos Deuses, primeiro volume da série As Crônicas da Aurora, do autor Gleyzer Wendrew, inicia em meio a conflitos em iminência de explosão.


Sinopse: A Face dos Deuses ultrapassa a linha imaginária que delimita o campo de batalha, penetrando profundamente na carne exposta da dor e do sofrimento de quem sobreviveu à guerra… O que fazer, para onde ir e como continuar, quando todas as pessoas que você amava foram tiradas para sempre de você? 
A guerra que deixa sobreviventes, deixa também vencedores? Para ato tão bárbaro e desumano não existe vitória. Todos já perderam.
           O livro te transporta para um mundo onde apenas o sentimento de vingança queima dentro do peito e os deuses silenciosos assistem ao espetáculo da tragédia com suas faces misteriosas...


Quando Heros Kinnhäert, rei de Mäaen, decidiu ignorar as inúmeras cartas de Kazoya Vennian para ajudá-lo a encontrar o Tesouro de Venn, desaparecido há nove meses, ele não imaginava que estaria traçando o destino de sua própria família e também de seu povo.

Tarde demais, ele percebe que Kazoya faria o possível e o impossível para encontrar a isäh Soraya, sua filha, inclusive selar um acordo com o cruel general vatriano Cleyo Blo'Siänkh. Quando Cleyo informa que não somente casará a isäh com seu filho Mäthias, unindo de vez os povos que antes quase se aniquilaram na Longa Guerra, virando-se desta vez contra Maäen, caso o Kennëg se oponha, mas que também, como termo do acordo, levará para ser criado em Vatra seu filho mais novo, o O’kennëg Antau, Heros se vê novamente em uma teia de conspirações e intrigas que ao menor sinal de fracasso, poderá terminar de vez com tudo que reconstruiu após a última guerra.

Vatra, localizado no norte do continente, é um país sombrio, onde a luz de Sühnt, o deus-sol, nunca chega. Habitado por adoradores de Fyaär, deus do ódio, o país é conhecido pela grande brutalidade de seu povo, que pratica a maldade apenas por devoção a seu deus.

As três maiores Famílias de Vatra são quem governam o lugar, os vatrianos nascem com um losango na testa, denominada “dádiva de Fyaär”, ou “brilho de fogo” que queima em sua testa de acordo com suas emoções. Os vatrianos que nascem sem a dádiva são considerados infiéis.

“Após a extinção dos antigos Mestres da Pena Negra, assim eram conhecidos os membros da Família Bë’Goöf, e com o Pactos dos Três recém assinado, Blo’Siänkhs, Sh’Fäelns e K’Voöks, uniram-se e deram início a um cerco contra Entia. Após quatro anos de inúmeras tentativas fracassadas de invasão, os Fyaraänos, ao retornarem a Vatra, além de exterminarem todas as tribos de hraoös que encontraram em seu caminho, deixaram entre os dois países um tremendo rastro de crucificações. Feita de pedra, a estrada carrega apenas sofrimento e destruição.”

“Sobre Vatra: cultura e história”,  p. 327, Autor Desconhecido – Ano Desconhecido

Após a Longa Guerra, nenhum tratado de paz foi selado entre Mäaen, Venn e Vatra, e apesar desse convívio aparentemente pacífico, qualquer passo em falso nesse jogo poderá reabrir as cicatrizes de que todos ainda se recuperam.

“Mentiras, laços frágeis, falsas emoções e adagas traiçoeiras permeiam um mundo cercado de religião, política e deuses misteriosos.”

Mais uma vez me deparo com uma história na qual não sei, afinal, quem são os mocinhos e quem são os vilões. Apesar de serem claros os objetivos e feitos de cada um, Gleyzer demonstra de cada ponto de vista os motivos que fazem homens justos ou brutais procurarem vingança.

“No norte, Koran K’Voöhk é um orgulhoso guerreiro que retorna à sua cidade após o exílio que lhe foi imposto ainda garoto, e depara-se com a mais pura decadência: sua Família está em declínio; seu castelo, abandonado aos ratos; seus inimigos, ainda mais poderosos...Conseguirá ele reerguer o nome de sua Família e recuperar o prestígio que ela um dia tivera?”

Intercalando os acontecimentos ocorridos em Arthä capital de Maäen, Väll capital de Vatra, Akähm, capital de Venn e também acompanhando o trajeto de Antau, partindo de seu lar no sul, com destino a Vatra, no norte do continente, A Face dos Deuses é um livro que considerei de um tipo quase “poético”. A escrita de Gleyzer é extremamente rica e o cenário é descrito com tamanho cuidado, que um mundo complexo e muito bem construído vai se formando em nossa imaginação.

Quando terminei a leitura, perguntei ao autor se tudo isso havia mesmo existido algum tempo na história, e ao saber que não, mais uma vez me perguntei se não existem, de fato, universos paralelos onde essas histórias criadas sejam reais. Pois acho quase injusto um mundo tão bem criado existir apenas em nossa imaginação.

Sem obedecer uma ordem cronológica de acontecimentos, os capítulos são narrados tanto no presente quanto no passado, e não tenho outra palavra que resuma melhor esta história: Genial.
Tendo um apoio fortíssimo na religião, os habitantes de Dünya veneram diferentes deuses, e é simplesmente incrível a forma como suas emoções são representadas por eles.

“A fome, a miséria e o caos imperavam numa capital que já vira dias melhores e agora pensava em deitar-se sobre o declínio. O próprio Sürm parecia caminhar onipotente pela cidade e a face de Vaäth era vista no rosto das pessoas.”

Vaäth – A Obscura, deusa do medo e do desespero.
Sürm – O Incógnito, deus do caos.                            

Com inspiração em Game of Thrones e outras histórias do gênero, A Face dos Deuses é diferente de tudo que já li, um livro daqueles que terminam bem na hora “errada” e o gosto de quero mais fica entalado após o término da leitura, pois Gleyzer soube prender o leitor em um universo riquíssimo e cheio de ação.

“ A Fyaraäna dançava levemente de um lado para o outro enquanto desviava dos ataques desajeitados. Suas espadas  pararam um, dois, três golpes antes de voltarem a atacar (...) Dois metros de terra seca e poeira os separavam. A guerreira vatriana adotou sua posição de ataque e se preparou para a última dança.”

Como qualquer história digna de finais “pqp!”, A Face dos Deuses encerra sua apresentação de forma inesperada e cheia de mistérios a serem resolvidos. Entre eles, um me deixou com os nervos a flor da pele: 

"Existe um antigo ditado nähfeno que diz:  A Floresta Dokah devolve apenas os puros de coração." 

 E já sou a primeira a aguardar fervorosamente a continuação.

Já digo como aviso que não pude contar nem a metade de toda a riqueza literária que o livro proporciona, existe uma lista de personagens importantes e muito bem construídos que infelizmente ficaram de fora, assim como lugares e fatos dessa história que são relatados ao longo da narrativa. Na verdade, não é fácil fazer jus a esta obra em uma resenha. O leitor deve embarcar a fundo nessa série que veio para conquistar os amantes de um bom livro de ação e reviravoltas astuciosas.

O livro conta com um mapa para podermos nos localizar, o que adoro, já que fico olhando a todo momento onde determinado personagem está. Além disso, um Apêndice é encontrado nas últimas páginas do livro, dando significado a alguns termos da história. Os Brasões de todas as grandes Famílias também encontram-se ali e a cronologia de todos os personagens e mais importantes acontecimentos de Dünya podem ser acompanhados.


Uma obra completíssima e que merece se difundir por todos os leitores que apreciam uma obra nacional de tirar o fôlego.

Gleyzer está de parabéns pela sua escrita e merece alcançar o maior sucesso possível por onde passar, pois criou uma das histórias mais envolventes que já tive o prazer de conhecer, logo eu, que amo uma boa fantasia.


Autor: Gleyzer Wendrew
Ano: 2016 / Páginas: 180
Idioma: português 
                Editora: Kiron

Encontre mais sobre o mundo de A Face dos Deuses no site As Crônicas da Aurora


Conheça um pouco sobre o autor



Gleyzer Wendrew  nasceu no dia 19 de abril de 1992, em Brasília, cidade na qual cresceu e ainda reside. Embora formado em Administração de Empresas, curso do qual se orgulha, tem sua grande paixão na Filosofia de Nietzsche, na História Medieval europeia e asiática, e nas diversas mitologias espalhadas pelo mundo. Fã incondicional de J. R. R. Tolkien, Bernard Cornwell e George Martin, não tentaria excluir desta sua primeira obra os conhecimentos que adquiriu com os mestres da literatura fantástica. Atualmente se dedica a consolidar o universo criado enquanto escreve os outros 3 volumes da saga.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cidades-Mortas

Já imaginaram como seria o Brasil em um futuro distópico? Lisarb tem um governo opressor, onde o único lema da Bandeira é Ordem e é preferível mandar jovens humildes para uma morte lenta e certa à cuidar de seu futuro. Acompanhem a resenha de hoje do livro Cidades-Mortas, em parceria com  a Chiado Editora, do autor Dêner B.Lopes. 



Sinopse:
Cada uma das 10 Cidades da nação de Lisarb escolherá, por meio de voto dos habitantes, um casal de jovens entre 15 e 18 anos para o Festival das Cidades-Mortas.
Os 20 Eleitos serão encaminhados para a Cidade-Morta selecionada, onde serão confinados e terão que escapar dos soldados-robôs que irão se dispersar pelo local, com claras intenções de morte lenta.
Todos aqueles que conseguirem sobreviver até o final das duas semanas de confinamento, terão a honra de fazer dois pedidos, possíveis e aprovados pelo Presidente, é claro.
As seleções começarão no dia primeiro do último mês do ano e o Festival terá início no dia terceiro após os Eleitos serem anunciados.
O confinamento será acompanhado por toda Lisarb por meio da TV aberta durante todos os dias do Festival, ao fim das noites.
Aos Eleitos, com toda a verdade, desejamos sorte e, acima de tudo, coragem.
David Neil e Boris Alvimar (Diretor da Emissora RGS-14 e Presidente da República)


Arthur Noah tem 16 anos, é pobre, órfão e tem quase certeza de que será o Eleito da próxima edição do Cidades-Mortas, festival de “entretenimento” onde vinte Eleitos são confinados à uma cidade-morta de Lisarb, antigas favelas nas quais a população foi dizimada e posteriormente usadas para sediar as edições do evento. Lá, os Eleitos precisarão fugir de soldados-robôs que não hesitarão em os torturar até a morte, caso sejam pegos.
Lisarb é uma reles sombra do que um dia foi o Brasil, liderado por um governo opressor, o preconceito impera nas relações da sociedade chegando a tal ponto onde até o espaço da praia é separado para brancos e negros, com um bom espaço entre eles.
A questão das drogas é algo imperdoável nessa sociedade e após ser pego com maconha, Arthur vai para a prisão, onde poderá ficar anos privado de sua liberdade.
 No dia da apresentação dos Eleitos, sem deixar de imaginar a frustração da elite branca votante ao não ver seu nome na lista de “candidatos”, Arthur e William, outro menor preso, assistem a abertura da trigésima edição Festival das Cidades-Mortas e mal imaginam eles que a aparente fuga planejada da prisão os levará para muito distante da tão sonhada liberdade.
Dêner fugiu do clichê das distopias, onde os protagonistas são direcionados previsivelmente para o meio da chacina. Mas isso não impede que, mesmo assim, Arthur acabe no meio da Cidade-Morta do Rio de Janeiro, a escolhida desta edição.
A ideia de Dêner é boa. Ele entra em assuntos delicados como preconceito racial, violência e o uso de drogas e nos mostra essa sociedade de diferentes pontos de vista. A leitura é rápida e esse foi um dos pontos negativos que encontrei durante o livro, o autor não se prende muito a detalhes, não nos permitindo visualizar melhor determinadas cenas da história, mesmo que a linha de acontecimentos seja interessante. Senti falta também de maior participação dos soldados-robôs, que não aparentam ser tão horríveis assim.
Um momento na história me chamou a atenção, que pra não dar spoiler, cito apenas que é uma forma que os idealizadores do evento criaram para “burlar” a naturalidade dos desfechos ocorridos no Reality Show, mostrando que nem mesmo quando vidas estão em jogo, o pão e o circo bastam para a plateia, que necessita incessantemente de mais fogo na fogueira, pois isso é o que dá (?) graça a vida.

Amo distopias e adorei ver como o Brasil se encaixaria nesse modelo, mesmo que alguns elementos já estejam presentes em nossa sociedade atual. Dêner está de parabéns pelas lições que mostra ao longo da narrativa e como disse antes, apenas a questão de um maior aprofundamento quanto aos detalhes foi o que ficou como ponto negativo para mim.

Livro cedido pela Chiado Editora.
Autor: Dêner B. Lopes.

domingo, 21 de agosto de 2016

Pseudônimo Mr. Queen




Imagine um mundo onde não há doenças, mortes prematuras nem a desigualdade social imposta pelo domínio do dinheiro. Em Pseudônimo Mr. Queen, de acordo com a profecia Maia, o mundo acaba em 2012 e com esse novo início, a promessa de um mundo justo e igualitário é dada aos sobreviventes.





Acompanhando a família Brandão, a história relata três gerações dessa nova sociedade. Regina Brandão é a matriarca dessa família e a única a ter conhecido o mundo antigo.

Agora, o mundo funciona da seguinte forma, são duas vidas: tanto sobreviventes quanto nascidos já no novo mundo, viverão até os 70 anos. Após, desfrutarão de uma segunda vida, iniciando nos 20 anos e indo até os 100 anos.

Um mundo igualitário, sem sofrimento, dor, fome ou guerras por poder e riqueza; mas a humanidade simplesmente não consegue aceitar o tédio que é uma vida assim; e após tentarem inúmeras e de várias formas burlar as leis do novo mundo, vendo mansões e prédios, assim como outros artigos de luxo, evaporarem um dia após ficarem prontos e perceberem que tudo será mesmo igual para todos, eles configuram uma tabela que medirá a pontuação de cada pessoa. Sendo assim, o grau de estudos, cargo profissional, desemprenho pessoal, social e emocional tornam-se critérios para uma pessoa diferenciar-se de outra, tornando-se “superior” a sua própria maneira.

Com o passar do tempo, subir a pontuação na tabela TUV torna-se uma meta de vida para muitas pessoas e aos poucos a forma de viver vai moldando-se com base no que melhor caracteriza uma pessoa de alta pontuação. Quando esse novo mundo começou, algumas crianças eram simplesmente abandonadas por pais que desejavam curtir ao máximo a nova vida; o que se tornou praticamente obsoleto quando uma família estável, completa e feliz virou sinônimo de pontuação alta na TUV.

“Não há sistema de governo que sobreviva à podridão de caráter de seus administradores. Enquanto as pessoas não pararem de visar interesses pessoais e passarem a olhar para o bem coletivo, que em última instância é a vida humana, nenhuma forma de governo será bem sucedida.”

Achei incrível perceber que a lógica de se adaptar ao que uma tabela lhe propõe como valendo mais ou menos, se adapta a nossa própria realidade, onde a vida em uma rede social pode ser ao mesmo tempo, tão diferente da vida real.

Alcançar a pontuação máxima nessa tabela criada pela nova sociedade não é o único propósito a ser alcançado. Confiado a uma seleta parcela da sociedade, a única forma de morrer é um mistério que algumas pessoas se dedicam a desvendar; prova de que uma vida sem mortes não é suficiente nem proveitosa para todos, já que em posse desse segredo, as pessoas erradas poderiam tirar um proveito injusto.

Mas a busca pela superioridade pessoal não é o único tema proposto no livro de Loraine Pivatto, Pseudônimo Mr. Queen trata sobre relações familiares, política, religião e inúmeros outros fatores presentes em nossa sociedade. Um livro que traz uma grande reflexão sobre a vida em conjunto.

Regina Brandão faz a passagem dos mundos em um momento complicado de sua vida, após ser decepcionada com a infidelidade de seu marido com uma amiga, se encontra sozinha, a não ser pela filha de sua rival, que sem pai nem mãe, acaba sendo criada por Regina. A relação entre elas nunca foi boa e algum tempo após Maria Eduarda ir morar sozinha, ela volta e deixa sua filha, Larissa, que é criada por Regina como sua neta.

A vida passa e logo a protagonista principal da narrativa é Larissa, em seguida também relatando a vida de Vitória Brandão, sua filha. Com uma boa linha de acontecimentos, a história é instigante e prende a atenção do leitor, que busca saber o que aconteceu com alguns personagens que simplesmente somem no meio da história. Também há um vilão, e o personagem mais manipulador que já conheci em toda minha vida.

        Foi incrível imaginar a possibilidade de uma segunda chance, onde a experiência da primeira vida não é esquecida, podendo-se aproveitar sem medo uma vida nova, além do fato de que a segunda vida se passa no mesmo lugar da primeira, como se fosse outra dimensão, dando credibilidade a uma teoria em que eu acredito. Mas foi decepcionante ver que mesmo assim, a humanidade não se contenta, já que chegando a nova vida, algumas pessoas preocupavam-se somente em recuperar o mais rapidamente possível a pontuação e o prestígio da vida antiga.


Pseudônimo Mr. Queen trata com facilidade de assuntos muito comuns em nossa vida; que mesmo inseridos em uma forma totalmente diferente de realidade, se espelham tão bem em nosso comportamento. Adorei a ideia do book tour, é realmente uma história que deve ser passada e disseminada de mão em mão, pois a mensagem que o livro traz é algo que nos faz refletir sobre para onde se encaminha nossa sociedade, que mesmo não tendo a possibilidade de um mundo diferente e continuando com sua única vida, sem saber certamente o dia de amanhã, luta mesquinhamente por bens materiais ou valores que no fim, não significam mais do que apenas números.



Título: Pseudônimo Mr. Queen
Autora: Loraine Pivatto
Publicação Independente - Book Tour

segunda-feira, 25 de julho de 2016

#LSR Entrevista - Giovanna Olivetti

Hoje, dia 25 de Julho, é comemorado o Dia Nacional do Escritor. Uma data mais que merecida para os responsáveis por nossas mais incríveis viagens. E neste dia não poderíamos deixar de postar mais uma entrevista. Hoje vamos conhecer um pouquinho melhor nossa parceira Giovanna Olivetti, autora do livro Desencontros lançado pela editora Novo Século.


 



Apaixonada por palavras, fotografia e livros. Quer conhecer todos os cantos e histórias do mundo, uma viajante no mundo literário. Poetisa sem rima, escritora sem história, fotógrafa inexperiente para tantos momentos e coisas que se há para fotografar no mundo.










LSR: O que lhe fez querer ser uma escritora?
Giovanna: Bom, desde pequena sonho em ser escritora, mas o que antes parecia um sonho impossível acabou se tornando realidade. Sempre me interessei por literatura e escrita, com o tempo escrever acabou se tornando uma forma de eu me expressar.


LSR: De onde vem a inspiração para escrever?
Giovanna:  Me baseio muito em coisas que vejo no meu dia a dia, a maioria das minhas histórias não são reais, mas o início delas sempre é. Quando vejo alguém na rua que chama minha atenção fico atenta aos detalhes e depois começo a imaginar como foi ou como será a vida daquela pessoa. Assim, a inspiração surge, principalmente, de situações cotidianas ou fotografias.


LSR: Tem alguma rotina para escrever, algum elemento que se tornou parte fundamental do processo criativo, como música, por exemplo?
Giovanna:  Procuro escrever sempre um pouco por dia, nem que seja uma linha ou apenas algum relato do dia, mas procuro sempre manter contato com a escrita. Gosto muito de poesias, principalmente as de Drummond, então procuro ler um pouco de suas obras para que a imaginação possa fluir.


LSR: Como a literatura entrou na sua vida?
Giovanna: Desde pequena fui muito influenciada pela família e escola, os livros sempre estiveram muito presentes ao meu redor, e conforme fui crescendo fui me interessando por diversos estilos.


LSR: Quais autores são referências para o seu trabalho?
Giovanna: Bom, o primeiro seria Drummond, como disse ele sempre me inspira a escrever e faz com que minha imaginação floresça. Entretanto, Machado de Assis e Rubem Alves são grandes referências também.


LSR: Como enxerga o mercado literário nacional atualmente?
Giovanna: Não vou negar que ser autor no Brasil sempre foi e ainda é muito difícil, a abertura para novos autores é quase nula e as editoras acabam preferindo autores internacionais. Mas, algumas tentam mudar esse preconceito que temos com a literatura nacional, por exemplo, o selo Talentos da Literatura Brasileira, no qual lancei meu livro, é um projeto para autores nacionais iniciantes, que tenta cada dia mais dar visibilidade a literatura brasileira.


LSR: Como foi o processo de publicação das suas obras? Houve muitas dificuldades?
Giovanna: O processo durou cerca de um ano (sem contar alguns contos que tinham sido escritos antes da ideia do livro), no processo de publicação recebi ótimas dicas e ajuda da editora, o que facilitou muito, o mais complicado foi achar alguma que tivesse interesse em publicar e gostasse da obra, a maioria fecha seu mercado apenas para best-sellers ou tem apenas interesse no lucro.


LSR: É possível viver da escrita no Brasil ou você desempenha outra profissão?
Giovanna: Ainda estou terminando o ensino médio e pretendo ter outra profissão, mas acredito sim, infelizmente ainda é uma profissão um pouco desacreditada, mas exige esforço e dedicação como qualquer outra. 


LSR: Em algum momento pensou em desistir?
Giovanna: Sim, quando recebi a recusa da primeira editora, porém hoje vejo que isso apenas me inspirou a procurar mais e escrever ainda melhor.


LSR: Como tem sido o retorno do seu público leitor?
Giovanna: Muito positivo, recebo algumas mensagens de leitores falando de seus contos preferidos e acho isso incrível, muitos imaginam um final para as histórias, e é sensacional ver a visão de cada um.


LSR: Quais são os seus planos para o futuro?
Giovanna: Depois de me formar pretendo iniciar outros livros, porém nenhuma ideia concreta ainda.


LSR: Para finalizar, que mensagem você deixaria para os seus novos leitores e para os escritores iniciantes?
Giovanna: Ah, aos novos leitores espero que se encantem pelo livro e comecem a perceber pequenas coisas em seu cotidiano que muitas vezes ignoramos, mas que acabam sendo impressionantes se prestarmos atenção. E aos novos escritores: não desistam, é muito difícil receber recusas, mas sempre terá aquele grupo de pessoas que se identificam com o seu estilo, e são essas que vão fazer tudo valer a pena! 


Conheça o livro Desencontros. *-*






Este livro te lembrará dos momentos mais simples do seu dia a dia: a ida para o trabalho, o metrô lotado… E fará com que você perceba que talvez as melhores histórias estejam ali ao seu lado, que todos somos escritores em nossas observações diárias e em cada observação procuramos a saída do nosso labirinto, que é cercado de jogos que nós mesmos criamos… Mas, espera, sair por que mesmo?









Para saber mais do livro, confira a resenha no blog. Basta clicar aqui.

domingo, 10 de julho de 2016

O Despertar do Lírio

Mais um nacional conquistando meu coração <3

Babi. A. Sette apresenta o segundo livro da série “Flores da Temporada”. “O Despertar do Lírio” é o protagonista da resenha de hoje.



Lilian Radcliffe é uma jovem viúva e está feliz com sua vida isenta de emoções. Culpa do luto que não larga? Lilian jurou fidelidade ao marido no leito de sua morte. 
Paralelo a isso, conhecemos Simon Thorn, homem frio e libertino, dono da maior casa de jogos de Londres. Ele está a um passo de realizar seu plano de vingança contra o culpado pelo título de assassino que recebera anos atrás. O problema é que o canalha está morto e ele terá de usar a sua viúva recatada a fim de atingir seus objetivos. 
De um lado, ela precisa manter sua honra intacta; de outro, ele quer seduzi-la e desmoralizá-la. No entanto, Lilian nunca se sentiu tão vulnerável e atraída por um homem. E Simon, por sua vez, demonstra reações ao lado dela das quais nunca imaginara ter. A vingança e a honra se abalam quando nasce entre ambos uma paixão incontrolável. Mas, para ficarem juntos, terão de enfrentar segredos e mágoas profundas, um castelo trancado há seis anos, palco de uma morte misteriosa e, sobretudo, encarar os fantasmas do passado que assombram suas consciências.



O livro conta a história de Lilian, irmã de Kathe (A Promessa da Rosa), e do famoso libertino da sociedade londrina, Simon.
Após todo o escândalo protagonizado por sua família, Lilian se casa com seu primo Rafael Radclife e leva uma vida pacata até que ele morre. A história transcorre após este fato.  Lilian jura fidelidade ao marido no seu leito de morte, e passa seus dias como uma conformada viúva que preza apenas por sua honra e moral, mesmo que, para mantê-las intactas, tenha que ser condenada a uma vida tediosa e infeliz.
Simon chegou muito perto de ter a vida que sempre desejou, porém alguns infortúnios do destino acabaram tirando tudo dele: Honra, respeito, família e sonhos;  deixando em seu lugar o titulo de barão assassino, uma fama de libertino incurável e uma péssima reputação.
O caminho desses dois personagens tão distintos acaba se cruzando devido a uma tentativa de vingança que Simon arquitetou contra Lilian, pelo simples fato de ela ter sido casada com o homem que arruinou sua vida.
Lilian, que ainda possui uma inocência acentuada, se vê envolta em uma rede de crueldade, mentiras, ódio, rancor, maldade e vingança. Coisas que ela nem percebe, e em meio a tudo isso, ainda deve lutar contra a atração que sente por Simon para preservar sua imagem de dama impecável.
Simon, por outro lado, terá que aprender a aceitar e conviver com as distintas reações que Lilian causa nele, pesando seus conflitos internos e abandonando velhos paradigmas para alcançar sua felicidade.

“Rendeu-se à certeza de que a  arte tinha o poder de abrir o coração, resgatar e curar feridas e de unir as pessoas.”

O livro trata do papel da mulher naquela época, o quanto era submissa e controlada. O poder que a sociedade exercia sobre a vida das pessoas, a ponto de transformar alguém de bem em um ser desprezado.  E como o amor pode surgir das situações mais absurdas.
Tudo se resume basicamente ao que os outros pensam.
A mulher era vista apenas como um objeto decorativo, um meio para um fim: reprodução e status, visto que na alta sociedade haviam muitos criados para as tarefas domésticas. Os homens não as valorizavam, o machismo como sempre marcando presença. Em contrapartida, a mulher aceitava este papel, e as poucas que ousavam ser diferentes, corriam o risco de ter a vida destruída.
O amor era algo sem importância, o que valiam eram as conexões e o dinheiro, contentando-se com uma vida confortável e sem afeto.

“-Como é triste as expectativas que colocamos nos outros, porque elas quase nunca são correspondidas e, meu Deus, como isso machuca.”

Os livros da Babi tem este poder de, mesmo nos transportando para o luxo do século em questão, abrir nossos olhos para todos os problemas sociais daquela época. As falhas e injustiças são gritantes, impossível ignorar.
Lilian teve sua família destroçada por um escândalo. Perdeu o contato com sua irmã, sua mãe morreu de tristeza e seu pai sucumbiu à insanidade. Em meio a loucura que seus dias tranquilos se transformaram, sua salvação veio em forma de pedido de casamento de seu primo. Ela aceitou sem hesitar, pois sabia que, na situação que estava, era sua única opção. Não foi uma mulher feliz, apenas pensou tanto que era, que até acreditou ser verdade. A única coisa boa que resultou desta união foi seu filho, que fez todos os maus momentos valerem a pena.
Trazendo para os dias atuais, Lilian, aos olhos da sociedade, é bela, recatada e do lar. Ela só pensa em seu nome e na sua honra, naquilo que os outros pensam dela. Não debutou e ao longo da vida acreditou que todas as coisas prazerosas da vida não lhe pertenciam. Amor está no topo da lista daquilo que ela acreditou jamais ter em sua existência.
Quando suas crenças começam a ruir e ela passa a se descobrir uma mulher jovem e interessante, que desperta a atenção dos homens ao redor e, principalmente, a gostar desta nova mulher que está se tornando, uma nova personagem surge na história: decidida, bem humorada, feliz, forte, que luta por aquilo que acredita e que não se abala pelas dificuldades que aparecem em seu caminho.

“Tudo era mentira.
Ela era uma grande mentira inventada por sua mãe, contada por seu pai, costurada pela sociedade e sustentada por seu medo de viver.”

Simon sempre sonhou em ter uma grande família feliz, casou-se com uma bela jovem e estava lutando para alcançar o que sempre desejou. Mas a morte misteriosa da sua esposa arruinou as chances de alcançar isso, não apenas pela tragédia, mas por ter sido acusado pelo assassinato da companheira.  Ainda que não tenha sido declarado culpado por falta de provas, a sociedade tratou de crucificá-lo e de arrastar seu nome para a lama.  Assim, ele se torna o famoso barão assassino, dono de uma famosa casa de jogos, temido por todos, que não se importa com ninguém e até acha graça nas tragédias alheias. Tudo que o move é a sede de vingança e, quando ele finalmente tem a chance, Lilian acaba mostrando que ainda há inúmeras possibilidades para que ele possa encontrar a felicidade, e ter tudo aquilo que sempre desejou.

“Algumas pessoas parecem entrar na vida de outras para derrubar suas defesas, desconstruir suas verdades, despi-las.”

A história se passa na Inglaterra, e é alternada entre Londres, uma casa de campo - onde ocorre a festa que aproxima Simon e Lilian - e a propriedade do barão. Cada cenário carrega suas implicações e diferenças na realidade do povo e seus dramas pessoais.
Os maiores conflitos da obra são a redenção de Simon e a transformação de Lilian. Enquanto ele tem que se livrar dos fantasmas do passado para seguir em frente, ela deve descobrir quem realmente é.
Uma história de amor improvável, que prova o poder de redenção que este sentimento carrega.

“Assustadora foi a certeza de que o meu coração moraria para sempre fora do meu peito.”

O livro é muito lindo e divertido. Esperei tanto por este lançamento, que meu maior medo era sofrer uma decepção. Não posso dizer que este superou o primeiro livro, pois estaria mentindo. A promessa da Rosa foi um dos melhores livros que li na vida, e sempre vai ocupar um lugar especial no meu coração. E, mesmo com as altas expectativas, o livro correspondeu ao esperado.

“-Simon, desça, pelo amor de Deus.
-Não Lilian – ele disse em voz alta -, vou salvar esse gato e depois mata-lo com as minhas próprias mãos.”

Uma leitura bem mais leve que a primeira, mas que carrega um fundo de melancolia. Não chorei desesperadamente durante a leitura, mas algumas lágrimas ainda me acompanharam. A leitura de uma obra como as desta série, em que a ficção chega próximo de ser mais realista, prova que, mesmo nos contos de fada, existem altos e baixos, e isso nos envolve ainda mais na história.
Recomendo a leitura aos fãs de romances de época, e aos que ainda não conheceram nenhuma obra deste gênero, esta é uma ótima pedida. Claro que neste livro há spoiler do primeiro, então deve ser lido na ordem.
Para terminar, já estou esperando o próximo!


“- Agora, se me der licença, eu preciso terminar a carta. – Apontou para a mesa com os olhos.
Estava angustiado. Isso era estranho.
E ela...
Virou um jarro cheio de água e flores nele.
Bem na cabeça dele.
Ele nem a viu agarrar o vaso. Perdeu o ar ao se sentir inteiro molhado. Molhado outra vez. Mas que inferno! Estava ainda em estado de choque quando ouviu:
-Termine sua carta, lorde Owen, eu não vou mais incomodá-lo.”



Título: O Despertar do Lírio
Autor: Babi A. Sette
Editora: Novo Século
Ano: 2016
Páginas: 382